ROUBOS A BANCO: DO CANO DA ARMA AO FIO DO MOUSE
Fonte: Zero Hora - Publicado em: 3/12/2007 – 9:28
A mais nova geração de ladrões de banco aposentou a arma de fogo e, sem sair de casa, enche os bolsos com fortunas garimpadas com os dedos no mouse.
Para especialistas, os prejuízos causados pelos golpes virtuais no Brasil já superam as perdas com os tradicionais assaltos, que caíram 64,5% nos últimos sete anos no Brasil.
Agora, de olho na rentabilidade proporcionada pelos crime cibernéticos, conhecidas quadrilhas de assaltantes de banco contratam crackers (hackers que usam conhecimento tecnológico para cometer crimes) para violar contas e desviar milhões de reais a partir de qualquer canto do país.
Em 2003, as fraudes bancárias no país somavam R$ 160 milhões. Atualmente, passam dos R$ 300 milhões anuais.
O fenômeno se repete além das fronteiras. Levantamento do Banco Mundial revela que as quantias desviadas pelos golpes virtuais já ultrapassam os lucros do tráfico internacional de drogas.
Estudo do FBI (a Polícia Federal dos Estados Unidos) diz que, em um assalto a banco, são roubados, em média, o equivalente a R$ 27 mil, e os assaltantes têm 75% de chance de serem presos. Em um golpe virtual, a média desviada é de R$ 1,8 milhão, e o risco de prisão é de 5%.
No Rio Grande do Sul, entre 1º de janeiro e 31 outubro deste ano, ocorreram 87 assaltos a postos e agências bancárias, e 84 suspeitos foram presos pela Delegacia de Roubos e Extorsões. Na mira de armas de fogo, foram roubados cerca de R$ 2,5 milhões, segundo cálculos de autoridades policiais gaúchas.Em contrapartida, em apenas três dias de novembro, uma quadrilha de crackers desviou quase R$ 1 milhão, causando transtornos para 450 correntistas do Banco do Brasil que vivem na Grande Porto Alegre.
- Eles (ladrões) têm um computador robô que manda 1 milhão de mensagens por dia. Se conseguir dados de 20 mil contas e sacar dinheiro da metade delas, imagina o tamanho do prejuízo. Não tem comparação com um assalto normal – afirma o delegado Adalton de Almeida Martins, da Unidade de Repressão a Crimes Cibernéticos da Polícia Federal (PF), em Brasília.SP deu início à transformação de assaltantes em crackersA fraude se multiplica por causa da alta rentabilidade e do baixo risco de prisão. Considerado um crime menor se comparado a um roubo a mão armada, o golpe se enquadra como estelionato, furto e formação de quadrilha, cujas penas máximas são de cinco anos.- Nesses casos, o mouse se tornou mais perigoso do que uma arma de fogo – acrescenta Adalton.Nos últimos dois anos, a PF prendeu mais de 700 ladrões de contas no país. Mas significativa parcela está solta, lamenta o policial.
Para o delegado José Mariano de Araújo Filho, da Polícia Civil paulista, a punição para os crackers deveria ser ampliada.
- É o tipo de criminoso mais perigoso porque usa a tecnologia para se manter no anonimato - observa Araújo Filho, da 4ª Delegacia de Investigações Gerais para Crimes Eletrônicos de São Paulo.
A metamorfose dos quadrilheiros em crackers começou em São Paulo, o Estado mais rico e por onde circula quase a metade da renda nacional. Ao mesmo tempo em que comemoram a redução dos assaltos às instituições financeiras, as autoridades estão alarmadas com o novo cenário criminoso.
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Se deram conta que é fácil conseguir informações pela internet e que não precisam mais arriscar a pele nas ruas. Podem ficar em casa tomando uísque, esperando o dinheiro – constata Araújo Filho.
O delegado diz que os golpes se alastram por causa da vaidade e do exibicionismo, característica comum a criminosos que ganham muito dinheiro:
- Os mais espertos ensinam os outros.
As instituições financeiras costumam indenizar os correntistas. Mas as fraudes sempre causam dor de cabeça às vítimas porque precisam comprovar o prejuízo.
- As operações não são seguras. Os bancos têm de investir mais – critica Juberlei Bacelo, presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre.
| A evolução dos ataques |
| 1967 |
O roubo a banco é uma raridade no Estado. Vira notícia em setembro, quando dois argentinos e um uruguaio são presos com documentos falsos no centro de Porto Alegre e apontados como autores de um roubo na Capital, usando pistolas calibre .45 |
| 1969 |
O crime à mão armada é uma novidade no país. O roubo a banco torna-se freqüente, praticado por grupos de oposição ao regime militar para financiar a luta armada. A situação leva o governo a enquadrar o crime na Lei de Segurança Nacional |
| 1977 |
Um caso foge do assalto convencional e surpreende o Estado. Em abril, em Três de Maio, ladrões roubam um carro, invadem as casas de três bancários durante a madrugada e levam as vítimas na condição de reféns para abrir o cofre da agência do Banrisul |
| 1983 |
A proliferação do roubo a banco leva o governo federal a criar uma lei específica para segurança de estabelecimentos financeiros. A legislação obriga a presença de vigilantes em cabina blindada e a instalação de alarmes e circuito de TV |
| 1987 |
| O tráfico de drogas financia a compra de armas para os assaltantes de bancos. Um dos mais atuantes, Vitor Paulo Mahus Fonseca, o Vico, é preso, foge durante um sangrento motim no Presídio Central e dias depois aparece morto em Gravataí |
| 1994 |
| A alta incidência de casos faz nascer na Capital uma lei que exige a instalação de portas giratórias com detector de metais e vidros à prova de bala até calibre .45. Como reação, bandidos com sotaque carioca introduzem o seqüestro relâmpago. Obrigam as vítimas a sacar até R$ 50 mil |
| 1995 |
| A maior proteção aos bancos altera o modo de agir dos bandidos. Alguns passam com pistolas de plástico pela porta giratória e rendem os guardas. A moda eleva os índices de outros tipos de roubos praticados com réplicas de armas de brinquedo |
| 1996 |
| Quadrilhas mais sofisticadas mudam o foco. Preferem roubar o dinheiro antes da chegada ao banco, atacando carros-fortes nas estradas. Para suplantar os blindados, usam fuzis contrabandeados do Paraguai |
| 1997 |
| Roubos quase simultâneos ocorrem na Capital e em cidades vizinhas. Os ataques e as fugas são combinadas pelo celular que começa a se popularizar. Com menor aparato de segurança do que os bancos, lotéricas e praças de pedágios também viram alvo dos bandidos |
| 1998 |
| Para os seqüestros relâmpagos, que já viraram rotina, os bancos limitam valores de saque e o horário de atendimento noturno nos caixas eletrônicos. A medida tem pequeno efeito prático, pois bandidos passam a levar as vítimas a aeroportos, onde o serviço funciona 24 horas |
| 1999 |
| Com as barreiras físicas cada vez maiores nos bancos, os bandidos inauguram os golpes virtuais por meio da clonagem de cartões. Um estranho aparelho, apelidado de chupa-cabras, é conectado aos caixas eletrônicos para capturar dados dos cartões das vítimas. |
| 2000 |
| Para entrar nas agências, agora dotadas de câmeras, porta giratória e alarmes, bandidos seqüestram os bancários responsáveis pelas chaves dos cofres. Em dois meses, cinco gerentes são rendidos no Estado. Empresas de segurança são contratadas para a abertura e o fechamento dos cofres. Em outros bancos, os cofres só abrem em hora marcada. |
| 2002 |
| A estratégia dos bandidos passa a ser levar o caixa eletrônico. Em nove meses, 16 terminais são roubados ou furtados. O equipamento é arrancado por cabos de aço e levado na carroceria de veículos. Dois PMs são presos em Porto Alegre, carregando um terminal em uma Fiorino roubada |
| 2003 |
| Até as carcaças dos caixas eletrônicos têm utilidade no mundo do crime: são compradas por bandidos, que fabricam furadeiras especiais para retirar as gavetas com dinheiro sem precisar levar o terminal. Os golpes rendem R$ 1 milhão a jovens de Joinville (SC). O líder do grupo é preso em Passo Fundo, e a polícia desarticula o bando |
| 2005 |
| Piratas virtuais aumentam suas ações e diversificam estratégias. Agora, enviam e-mails com um programa espião para capturar os dados bancários dos correntistas que acessam a conta pela Internet. Com as informações, desviam valores das vítimas pelo computador |
| 2006 |
| Embora exista uma queda no número de roubos a banco, crescem os ataques à marretadas nas vidraças à prova de bala das agências. São ações sem planejamento, que rendem o dinheiro dos caixas. Os crimes são atribuídos a jovens que agem sob a ordem de traficantes de drogas presos |
| 2007 |
| A tecnologia para aplicar golpes bancários se espalha por meio de sites na Internet e a fraude de alastra. Tradicionais quadrilhas de assalto a banco do centro do país migram para o crime virtual, contratando crackers para desviar dinheiro das contas sem sujar as mãos. |
ASSALTOS EM QUEDA
Estatísticas oficiais revelam que os assaltos a banco estão em queda no país. Conforme dados da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), ocorreram 674 roubos no ano passado, um terço do número registrado em 2000 (1.903).A entidade atribui a redução a investimentos em equipamentos de segurança e a trabalhos de prevenção em parceria com as autoridades da área de segurança pública. No Estado, entre 2004 e 2006, houve crescimento de 14,28%, com média de 10,6 casos por mês, no ano passado. Neste ano, a média caiu para 8,7 roubos mensais. Segundo o delegado Heliomar Franco, da Delegacia de Roubos, a retração tem a ver com as 84 prisões realizadas neste ano.
Juberlei Bacelo, do Sindicato dos Bancários da Capital, diz que assaltos ocorrem com freqüência porque bancos descumprem a legislação.
| Os números |
| No Brasil |
| 2000: 1.903 |
| 2001: 1.302 |
| 2002: 1.009 |
| 2003: 885 |
| 2004: 743 |
| 2005: 585 |
| 2006: 674 |
| Fonte: Federação Brasileira dos Bancos |
| No Estado |
| 2004: 112 |
| 2005: 116 |
| 2006: 128 |
| 2007: 87 (*) |
| (*) Até 30 de outubro |
| Fonte: Secretaria da Segurança Pública |
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